Na última segunda-feira (21), o CCBA realizou o primeiro Kulturforum de 2005, com o tema Religiões Africanas nas Obras de Pierre Verger, Jorge Amado e Hubert Fichte. A palestra contou com a participação do Prof. Claudius Armbruster, da Universidade de Colônia, na Alemanha, além de alunos, professores do Centro e visitantes.
Para Armbruster, os três autores têm um elo em comum: a representação das religiões afro-brasileiras em suas obras, especialmente do candomblé. Pierre e Amado foram representantes da religião dentro e fora do Brasil, participando ativamente dos seus rituais. Fichte, ao contrário dos outros dois autores, via os ritos afro-brasileiros com ceticismo e desconfiança.
Jorge Amado foi criado em meio à cultura negra, apesar de ser branco e de conviver entre os intelectuais de sua época. Amado quer viver nos dois mundos, diz o pesquisador. Ele tenta fundir o mundo prático, da função religiosa, e a arte da escrita.
De origem rica, Verger trabalhou como repórter para revistas importantes, como Paris Match. Deixou o mundo civilizado da Europa para morar em um bairro pobre de Salvador, integrando-se à cultura local e participando ativamente dos rituais do candomblé.
Teve uma estreita amizade com Jorge Amado por muitos anos, aparecendo como personagem em alguns dos seus livros, como Navegação de Capotagem, Quincas Berro d’Água, D. Flor e seus dois maridos e Tereza Batista. Uma pesquisa realizada em conjunto pelos dois resultou no romance Tenda dos Milagres.
O relacionamento terminou de forma problemática a partir do final da década de 1980, devido à visão que cada um tinha sobre a origem do candomblé. Verger quer buscar as raízes africanas da crença, enquanto Amado acha que se trata de uma religião essencialmente brasileira, fruto da mistura de raças tão peculiar ao Brasil. Amado achou a postura de Verger algo sectária, quase racista, diz Armbruster.
Alheio a essas discussões, Fichte utilizou vários tipos de texto para criar uma obra de grande intertextualidade, interessando-se pelo uso medicinal das plantas do candomblé. Seu livro mais importante é Explosão - Romance da Etnologia, publicado em 1993. Assim como toda a sua obra, o volume só foi publicado após a sua morte.
Debate - No fim da palestra, o público participou de um debate. Alguns temas abordados foram diferenças entre as comunidades afro-americanas dos EUA e afro-brasileiras, a mistura entre o catolicismo e o candomblé, a perseguição sofrida pelos seus praticantes e o preconceito que dura até hoje.
